Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Acima da Rua 14

Luis Fernando Verissimo

Em setembro de 2001, fomos passar alguns dias em Nova York. Chegamos no domingo, dia 9. Para poder viajar eu tinha deixado várias colunas adiantadas. Depois dos atentados da terça-feira passei a escrever sobre o que estava vendo em Nova York para cadernos especiais do Globo e da Zero Hora, mas a Agência Globo não distribuiu estes textos entre outros jornais, que continuaram a publicar as crônicas que eu deixara prontas. Durante pelo menos duas semanas os leitores destes jornais suspeitaram que os ataques ao World Trade Center tinham sido tão traumáticos que eu simplesmente renunciara a realidade, ou enlouquecera. Nova York pegando fogo e eu escrevendo sobre coisa nenhuma. Só podia ser trauma.


Onze de nove de 2001 foi o dia em que a frase “ninguém é louco o bastante” perdeu o sentido. A revelação de que os terroristas que atacaram Nova York e Washington eram homens educados que prepararam tudo meticulosamente sem despertar suspeitas entre pessoas “normais” – ou seja, que não eram malucos inconfundíveis com nada a perder, prontos a morrer pela promessa de uma eternidade entre virgens – mudou a expectativa de medo. Não era preciso mais ser louco para ser louco o bastante. O suicida racional não era o camicase manejável a que se recorria na hora do desespero final, como o Japão no fim da Segunda Guerra, ou o insensato que vira herói, ou o mártir que mal entende seus próprios motivos. O suicida estratégico, mais do que um novo tipo de homem engajado, era uma nova arma. Como se defender dela, ninguém sabia, pois só se identifica o louco o bastante quando já é tarde demais. Um aperfeiçoamento da nova arma seria o louco o bastante nuclear. Desde onze de nove de 2011 esse pensamento não sai do inconsciente de todo o mundo.


Depois dos desabamentos as autoridades de Nova York designaram a Rua 14 como a fronteira entre a vida normal da cidade e a área do crime. Os ônibus só iam até a Rua 14, o único trânsito permitido abaixo da Rua 14 era o de veículos oficiais, carros de polícia, ambulâncias, escavadeiras e caminhões para a retirada dos escombros – e os caminhões especiais para transportar cadáveres. Quem conseguia estabelecer uma Rua 14 na cabeça, um limite para o seu pensamento como existia um limite para o trânsito, podia viver a situação sem tanta angústia. A “vida normal” aos poucos se reorganizou acima da Rua 14. Muita gente que morava fora da cidade ficara em casa, atendendo a um pedido do prefeito, mas quase todo o comércio abriu, os restaurantes funcionavam, nada lembrava o que acontecia do outro lado da fronteira. Era outono, os dias estavam bonitos, nada parecia ter mudado muito em Nova York e nas nossas vidas. Era só não deixar o pensamento cruzar a Rua 14.


A hegemonia econômica conquistada a partir da Segunda Guerra pelos Estados Unidos transformou o resto do mundo num quintal da ponta sul da ilha de Manhattan. As torres do World Trade Center foram construídas para não deixar dúvidas de que o império do capital tinha um centro. Num livro escrito sobre as duas torres anos ante, e que o tempo tornara profético, Divided we stand (algo como “Separados venceremos”) o autor conta que os edifícios do World Trade Center foram feitos não só para tirar o máximo proveito imobiliário da zona comercial mais valorizada do mundo, com mais atenção à rentabilidade do que ao bom senso, mas para aparecerem, para literalmente dominarem a vizinhança, que no caso era o planeta. Por isso aquelas anomalias plantadas como desproporcionais caninos postiços numa dentadura. “Uma loucura” disse o autor do livro, que vi entrevistado na TV “que convidava a outras loucuras”, uma frase cheia de implicações que o entrevistador preferiu não examinar, se é que as identificou. A discutível lógica do autor se parecia um pouco com a que justifica o estupro porque a vítima atraente está, de alguma forma, pedindo. De qualquer forma, no mesmo dia vi outra entrevista na TV em que a mulher de um dos mortos no ataque, que já trabalhava numa das torres quando houve o atentado de 1993, contou que as últimas palavras que ouviu do marido pelo telefone antes do fim foram “Eu odeio este edifício”.


Na quarta-feira à noite, o vento mudou e começou a soprar do Sul. O cheiro e o ar áspero da área destruída não respeitaram a divisão da Rua 14 e invadiram o resto da ilha de Manhattan. Chegaram até a Rua 76, onde estávamos fingindo que nada daquilo era conosco. Não devo ter sido o único da nossa plácida redondeza a pensar no pior. Sem, ainda era possível pensar em coisa pior do que dez mil pessoas (era a estimativa que se fazia então) mortas em minutos: milhões de pessoas mortas pelo vento. E se o ar fosse venenoso? E se o ataque também fosse químico? Impossível? Uma palavra que deveria ter sido aposentada naquela terça-feira, junto com a frase “ninguém é louco o bastante”, e “inverossímil”. Não existe mais o inimaginável. O onze de nove ficou como o dia em que os efeitos especiais do cinema atingiram o grau máximo de perfeição: não dependiam mais do filme. Não faltava nada para aqueles dois aviões mergulhando nas torres do World Trade Center parecerem reais. Nem a realidade.


Na quinta-feira o vento mudou de novo. A fumaça agora estava indo para o Leste. Todos respiraram aliviados, acima da Rua 14.


Domingo, 17 de setembro de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.